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PEQUENA LEMBRANÇA - EPÍLOGO
Pode parecer que esta é simplesmente a história de uma ressaca, mas é bem mais do que isso. É a viva lembrança de como a melhor fase da vida de um casal se deu início. E lembrar-se da ressaca, para Ricardo, só não é melhor do que lembrar-se do que veio imediatamente depois dela. Queria chorar, vendo-a perfeitamente agora, chorando copiosamente, mas não conseguia. Tinha uma enorme vantagem sobre ela. Podia ir a qualquer momento da história dos dois e viver tudo novamente, com a mesma intensidade da primeira vez. Ele não a perdera, e, embora ela pudesse achar que sim, ela também ainda o tinha. Mas ele estava com a vantagem, agora. Nada foi tão importante na vida de Ricardo quanto o momento sublime em que se encontraram novamente depois daquela ressaca. Nele ele pôde enfim externar o quanto a amava. E pôde também ouvir o quanto era amado. Fizeram suas promessas e cumpriram-nas quase na sua totalidade. É certo que muita água se passou depois desse simplório episódio. Ficaram um tempo morando mais distantes ainda, para depois juntarem-se de vez. Tiveram seus filhos, e depois os netos. Riram, choraram, contaram suas histórias de amor aos quatro ventos. Enfim, viveram. Mas a maior ressaca já vivida por um homem não é tão fácil assim de esquecer. Tanto não o é, que muito tempo depois estava ele com o seu olhar turvo lembrando-se de como tudo começou. Aquilo, com certeza não seria o fim da história. Não colocariam um ponto final em tudo o que veio depois daquela bebedeira, simplesmente por conta de uma passagem natural. Os encontros e desencontros que se seguiram depois daquele dia, resultaram em uma vida a dois que, como dito alhures, não terminaria assim. Estava ele do outro lado da eternidade. E esperaria por ela até que usasse novamente do seu poder de tê-lo do jeito que queria. À hora que quisesse. E ela usaria. Mais cedo ou mais tarde estariam juntos novamente, e, se dependesse dela (como sempre dependeu), não seria um som mal regulado que iria atrapalhar esta história que contei agora.
Escrito por Carlos Wenderson às 21h08
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PEQUENA LEMBRANÇA - CAP. 04 - O ÁLCOOL DA FESTA É O QUE LHE RESTA
Tinha ido com sua banda tocar na cidade vizinha de Tamarindeiras, e a festa prometia. Marcos, o guitarrista, era um tanto quanto desligado do mundo, e tudo o que mais lhe importava era chegar à perfeição técnica musical, e criar o solo da sua vida. Talvez não estivesse longe de criar tal solo, mas para a perfeição técnica ainda havia uma longa estrada. Era uma figura engraçada, que aparentemente não se irritava com nada, mas que, por motivos que nunca poderíamos prever, perdia as estribeiras e tomava decisões completamente precipitadas. Mas, diga-se de passagem, quase sempre acertadas. Tinha sido num desses raros picos de raiva que decidira por não tocar mais naquela noite. O som alugado pelos organizadores da festa não estava regulado de acordo com o que tinham pedido na noite anterior, e isso o deixava realmente muito irritado. Do resto da banda ele sempre tinha total apoio nessas decisões. Para Paulinho, o baterista, nada importava. Sua única preocupação era chegar em cima do palco e tocar. Então, se diziam que não teria festa, nem ao menos importava o motivo. Ele não contestava nada, assim como Leandro, o vocalista. Na verdade, quem tomava as decisões pela banda eram mesmo Marcos e o nosso herói: Ricardo. Maria Clara era nada mais, nada menos do que a organizadora do evento: Uma festa da sua escola, para arrecadar fundos pra a tradicional excursão de fim de ano, onde a turma formanda escolhia um destino paradisíaco e se despediam do segundo grau em alto estilo. Vê-la transtornada por não ter sido cumprida uma das exigências cruciais da banda cortava-lhe o coração, mas esperava que ela entendesse que o fato de não tocar na festa, que tinha sido bastante divulgada nas férias, não representava nada pessoal. Ricardo não fazia a menor idéia do poder que Maria Clara possuía. Claro que eles iriam tocar, se dependesse dela. E dependia. Não fora ela quem contratara o som? Por acaso não pagaria ao técnico exatamente a (absurda) quantia que ele cobrara? Então teria que obedecer exatamente as suas ordens, sob pena de ter o contrato desfeito. E a sua única ordem era: obedeçam as ordens da banda. E assim procederam. Obedeceram as ordens da banda, e o som ficou exatamente como Marcos havia exigido. Não haviam mais motivos para não tocar, e Ricardo queria muito encontrar Marica Clara no meio da multidão para dar-lhe pessoalmente a notícia de que tocariam. Mas não conseguiu antes da banda começar. E foram aplaudidos pelo som que fizeram. E agradeceram aos organizadores do evento, e ao público que o prestigiou. Apesar de ter sido uma boa festa, Ricardo não viu mais Maria Clara àquela noite e, como pensou que não mais a fosse ver, mergulhou no álcool as suas mágoas, no intuito de esquecer-se do olhar reprovador de antes de tudo se resolver. Como pudemos constatar, de nada adiantou.
(continua...)
Escrito por Carlos Wenderson às 22h18
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AGONIAS DE DOMINGO
SINTO-ME SUFOCAR... ESSE CALOR QUE CHEGA ESTREMECENDO A ALMA; ESTREMECE MEU SER E DEIXA DÚVIDAS SOBRE A CORAGEM.
VEJO AS FOLHAS CAÍDAS SEM COR, SEM VIDA; ELAS NÃO RESISTIRAM AO TEMPO, SUCUMBIRAM; VEJO AS PLANTAS QUEIMADAS, OS BAMBUZAIS A SE ESTICAREM TENTANDO VENCER O INVENCÍVEL... E O VENTO TRAZ O FÉTIDO ODOR QUE SOBE COLINA ACIMA, DEIXANDO A TARDE AINDA MAIS TRISTE, AINDA MAIS CINZA;
ATÉ MESMO O AMARELO DO SOL JÁ NÃO BRILHA COM TANTA INTENSIDADE; JÁ NÃO TRAZ ALEGRIA, NEM A MIM, NEM AS PLANTAS; MAS AINDA ARDE, AINDA QUEIMA E RENOVA O CALOR...
E ASSIM VOU VIVENDO, SEM MUITA EMOÇÃO, SEM MUITO BRILHO; SUFOCADO DE CALOR, ANGUSTIAS E SEM PODER GRITAR...
VOU ASSIM, PELO TEMPO QUE ME RESTAR, PELO TEMPO QUE INSISTE EM APRESSAR... SEGUINDO OCULTO... NAS FOLHAS, NAS PLANTAS, NAS TARDES, E NO CALOR...
SÉRIE: TEMPOS OCULTOS.
Escrito por Leandro às 18h05
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uma tirinha pra descontrair...

Escrito por Carlos Wenderson às 18h04
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PEQUENA LEMBRANÇA - CAP. 03 - UM BOM MOTIVO PRA UMA BOA RESSACA
Maria Clara não era o que qualquer um na rua chamaria de “Mulher perfeita”, nem mesmo a “Mulher dos sonhos” de qualquer um. Mas era a mulher perfeita pra ele. E também a mulher dos seus sonhos. Pequena, seus cabelos loiros, cacheados, chamavam suas mãos, e a simples lembrança do perfume que emanavam não o deixava dormir à noite. A boca, carnuda e sensual traduzia todas as formas de sentimentos nobres e profanos. Todos misturados. Seus lábios o faziam esquecer de tudo quando abriam-se e mostravam uma arcada perfeita, uns dentinhos que mais pareciam desenhados, de tão simétricos. Os olhos? Ao lembrar destes, a cabeça doía mais. Castanhos claros, redondos e vivos... pareciam que lhe viam a alma, quando seus olhares se cruzavam. Tinha um corpinho perfeito, com uns lindos seios que lhe transformavam num poço de lascívia. Não conseguia mais se concentrar em nada quando lembrava-se daquele corpo, que, pelo fato de ser ela pequena, imaginava que se encaixaria bem no corpo dele. Sonhava com isso dias e noites seguidos. Conversar com ela era como trocar idéias com ele mesmo. Pode até parecer exagerado agora, mas ele se sentia como se falasse com uma pessoa que sempre tivesse sido sua melhor amiga. Os dois se entendiam, e isso não era tão comum pra ele – dois seres de sexo opostos se entenderem tanto em uma conversa. Estava perdidamente apaixonado, como já constatado anteriormente, mas parece que estragava o que seria uma boa oportunidade de tê-la. E isso sim, era um bom motivo pra uma boa ressaca.
(continua...)
Escrito por Carlos Wenderson às 00h05
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PEQUENA LEMBRANÇA - CAP. 02 - SÁBADO, 10:02h
O ruído dos carros na rua. O calor intenso do dia penetrando na janela do quarto. O inesquecível cheiro do churrasco do almoço sendo preparado no mercado em frente ao seu prédio. Tudo isso não o deixava descobrir se lhe doía mais o estômago ou a cabeça. Nunca tivera uma ressaca como aquela. Também nunca havia misturado tanto whisky barato com vodka e outras bebidas das quais tenta reconhecer em meio ao vômito, como na noite anterior. A televisão ainda ligada servia para denunciar que a única companheira fiel de todas as horas continuava exercendo bem o seu papel. Não era nada difícil lembrar o motivo do porre. Seu sorriso no porta-retrato contrastava em muito com o ríspido olhar que lhe dirigira quando do seu último encontro. Porque ela o tratara assim? Não conseguia conceber o fato de que, apesar de morar longe, era mal visto na cidade onde ela morava. Não entendia as razões disto. E o que o resto da sociedade tinha a ver com eles? Indo de encontro a todas aquelas náuseas e dores, levantou-se e fez um enorme esforço pra permanecer de pé. Não conseguiu. Desabara novamente na cama. A tontura e o sono ganharam a batalha contra a sede. Agora o cheiro de churrasco que invadia suas narinas sobressaía-se em meio ao de vômito azedo. Este já estava quase imperceptível, graças a um desses recursos que o cérebro humano usa para disfarçar o que incomoda. O que estava mesmo incomodando, agora, era uma fome incontrolável. Pensando num modo de saciá-la, abriu os olhos e tentou mais uma vez levantar-se. Olhou o relógio: três da tarde. Ao movimentar-se na cama, percebera a poça de suor em que estava envolto, e ao abrir a boca, notara a imensa sede que lhe possuíra. Providenciar tudo aquilo para ele era um tormento. Só não era maior do que lembrar do olhar atravessado que dera início à toda a bebedeira causadora da ressaca atual.
(continua...)
Escrito por Carlos Wenderson às 13h39
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OBRIGADO A TODOS, JÁ TIVEMOS 100 VISITAS... :)
Escrito por Leandro às 12h18
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PEQUENA LEMBRANÇA - CAP. 01 - Reciprocidade de agonias
Existem coisas sobre as quais a gente fala, ou escuta durante nossas vidas inteiras, mas que nunca soubemos exatamente o que era. Ele também teve dessas. Dentre as várias, o amor foi a descoberta mais recente. Desde o dia em que foi deitar e percebeu que o desespero tomava de conta do seu ser, simplesmente por que não a tinha ali, ao lado, como a teve a poucos dias (que mais pareciam meses), que acordou para a realidade: ele amava. Não podia mais suportar a idéia de viver separado daquela menina. Aquilo ia acabar. Ele mesmo iria por um fim àquelas imposições todas. Era pra namorar? Namoraria. E com gosto. O amor tocou-lhe a face e todo o resto do corpo. Amava aquela mulher com toda a força que poderia extrair daquele corpo magro. Ela nunca teve dúvidas do que sentia por aquele moleque. Desde que o conheceu soube que esse era o homem que procurava. Costumava dizer que não o conheceu, e sim, que o Reconheceu. E tinha seu fundo de verdade. Mas acontece que sua mãe nunca poderia sonhar com um romance desses. Existiam vários pontos em desfavor do seu pretendente: tocava em uma banda de rock; Usava os cabelos cortados de um modo, digamos assim, um tanto quanto rebelde, com um tufo de cabelos que lhe atravessava a cabeça da testa à nuca, e nas laterais apenas o couro cabeludo raspado. Era o que chamavam de “moicano”, e, dentre todos os defeitos, o pior era apenas uma suposição: “Provavelmente usava drogas” – dizia a sua mãe. Sua mãe e todo o resto da cidade, aliás. (continua...)
Escrito por Carlos Wenderson às 19h06
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PEQUENA LEMBRANÇA - PRÓLOGO
Não entendia muito bem a cena que presenciava. A vista há muito já não era a mesma, e não havia óculos ou cirurgia que lhe devolvesse a alegria de distinguir rostos, especialmente agora, em meio à multidão que se aglutinava em frente à sua casa. Mas de uma coisa ele podia ter certeza: estavam todos chorando. E o peso de um sentimento de tristeza coletivo se escanchava sobre seus ombros, o forçando a continuar imóvel. Embora fosse turva a sua visão, conseguia distinguir aos poucos as pessoas de que mais gostava, não por recursos visuais, mas por gestos e trejeitos que lhe eram característicos. A voz inconfundível de sua prima, entremeada de soluços, sendo consolada pelo sempre prestativo sócio e melhor amigo, o modo como a sua tia tossia, dando um ligeiro gemido após a tosse, etc. Mas a que mais lhe doía ouvir, era, sem dúvida alguma, a da pessoa pela qual viveu. Não sabia o que fazer para consolá-la, e teve que se esforçar ao máximo para conseguir sair de onde estava e chegar até a fonte daqueles lamentos. Mas de nada adiantava tanto esforço. A única coisa que poderia fazer, naquele momento, era lembrar-se. E as lembranças tinham o estranho poder de se materializar, e então vivia tudo novamente, com a candura que só mesmo as boas lembranças podem trazer.
(continua...)
Escrito por Carlos Wenderson às 18h17
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MORROS SURRADOS
A tarde estava calma, parecia que o tempo havia esquecido de passar naquele lugarejo, as casas continuavam no mesmo tom de cor cinza, as pessoas levavam a vida a contar as horas para chegar a hora de dormir e no outro dia voltar a rotina. Só havia uma pessoa que parecia estar completamente fora de sintonia com aquele lugar, Alberto Moreno, mais conhecido por Neguinho. Neguinho era um jovem visionário, falava pouco e trabalhava demais, cada momento que podia estava trabalhando, e havia só um pensamento em sua mente, sair daquele lugar, ir embora. Alberto queria ver além das montanhas, ele vivia a imaginar o que estaria esperando por ele quando conseguisse transpor aqueles imensos paredões. Mas como todos sabiam, era impossível Alberto ir embora, era impossível qualquer um sair de Morros Surrados, a cidadezinha era cercada de altas montanhas tendo apenas um acesso, o vale, e esse era fortemente vigiado por quem de fato mandava na cidade, o capitão Cabral. Cabral era o que costumavam chamar de pessoa do instinto ruim, ex-capitão da polícia era agora o maior produtor de gado da cidade, e todos ali trabalhavam para ele, e quem fugia, ou arriscava a vida nas montanhas era perseguido e castigado para dar exemplo. Segundo as próprias palavras do capitão Cabral, o único jeito de sair de Morros Surrados é morto. Porém uma pessoa estava determinada a provar que Cabral estava errado, e sem falar uma palavra, Neguinho traçou seu plano para escapar do capitão e deixar Morros Surrados. Em uma casinha nos arredores da cidade montou seu palco e traçou linhas e planos, era perfeito, escalaria a montanha mais alta, enfrentaria a fúria dos ventos, a fome e o frio, mas estaria livre. Sim, pensou consigo, é por lá que irei, pela Montanha dos Ventos! Após ter traçado seu plano infalível, Neguinho se viu em um forte dilema, ele adorava estar com seu amigo Hugo, ao qual sempre prometera que iriam fugir juntos dali, porém ultimamente Hugo andava fraco e não tinha condições de tentar tal proeza, mas como amigos inseparáveis, Alberto não podia deixá-lo para trás, foi até ele e contou seu plano, Hugo concordou que iria ou morreria tentando. Na hora marcada, no dia escolhido, os dois amigos começaram a jornada rumo a Montanha dos Ventos, por ser a mais alta, ninguém era louco de tentar escalá-la, então por isso o capitão Cabral sempre deixou-a desguarnecida, a própria montanha se encarregava dos poucos loucos que tentavam transpô-la. Mas nada pararia esses dois amigos, e assim começaram a subir, subiram e subiram, até que o ar começou a ficar mais difícil de ser respirado, as pernas doíam, o corpo padecia, só a vontade de estar livre mantinha os dois na escalada, que ficava cada vez mais difícil, quase impossível. A jornada foi demais para Hugo que estava debilitado, então ele decidiu voltar a Morros Surrados, pois assim seu grande amigo teria a chance de escapar. Neguinho ouviu com pesar a decisão do amigo, mas enfim concordou, e prosseguiu sozinho. Após uma longa e exaustiva jornada, enfim Neguinho vencera a Montanha dos Ventos, agora era só andar até a entrada do vale e sair de vez daquele lugar medonho. No caminho já imaginava os campos verdes, lindas flores, água cristalina, e a grande oportunidade de começar uma vida nova, longe da pobreza que assolava Morros Surrados. Chegou a entrada do vale, era um pequeno caminho até a liberdade, pensou em correr, mas decidiu ir devagar, ninguém sabia que estaria ali, ninguém o seguira, podia ir tranqüilo, aproveitar seu momento de glória, e assim o fez, caminhando lentamente pelo corredor de rochas que o levariam até a saída do vale, saboreando a cada passo o prazeroso sabor da vitória. Pronto, agora é só virar naquela pedra grande que terá a visão do paraíso. Virando na grande pedra, Neguinho nem conseguia acreditar no que via, seu amigo Hugo estava esperando por ele, juntamente com o capitão Cabral, e havia um cano de espingarda apontado para a cabeça de Neguinho, ele havia sido delatado pelo seu melhor amigo, que com as pernas e braços quebrados da tortura clamava por seu perdão. Levado a prisão e humilhado em praça pública Neguinho decidiu que ainda veria os belos campos além das montanhas, e jogado no fundo da cela mais horrenda de Morros Surrados traçou mais uma vez seu plano infalível, dessa vez não diria a ninguém, e sairia dali pra sempre. No dia marcado, na hora escolhida, Neguinho colocou seu plano em ação, sabia que passaria por todas as agonias que um homem pode suportar, e passou, fome, frio, fraqueza do corpo, sentia fome e não tinha o que comer, frio e estava nu, cansaço, mas não podia parar, a liberdade estava logo a sua frente... Escondia-se dos animais ferozes que passavam ávidos de carne, temia as hordas furiosas que o procuravam, mas enfim, Neguinho chegou ao paraíso que imaginava. Os campos eram verdes e havia uma infinidade de vida, pessoas alegres cantavam e logo perceberam a chegada do maltrapilho Alberto, e como se já esperassem por ele o cumprimentaram e cuidaram dele. Enquanto isso em Morros Surrados, Hugo chorava a fraqueza do amigo, no enterro de Neguinho que fora encontrado morto em sua cela, ele não conseguia entender como o amigo podia ter desistido do sonho, sem saber que o plano de Neguinho era perfeito. A vida não acabava ali, e só com muito sacrifício ele conseguiria fugir daquele inferno, pois só morto se deixa Morros Surrados.
Escrito por Leandro às 02h39
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BOAS VINDAS!!
Olá meus amigos, Púlpito Profano é o local onde se dará as publicações dos pensamentos mais insanos de seus criadores. O blog é um aperfeiçoamento do antigo asterisco literário. Aqui será publicado nossas histórias, livros nunca antes terminados , nossas tirinhas, enfim, todos os pensamentos insanos que povoam nossas cabeças!! Divirtam-se!!
Escrito por Leandro às 01h07
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LUCUBRAÇÃO
- Olá, tem alguém aí? Não houve respostas. A noite percorre seu ciclo, as pessoas dormem, o mundo quase que pára nessa cidade que repousa ao som dos seus ar-condicionados, porém esquece que nem todo mundo está dormindo. - Olá, alguém me escuta? Não há respostas. Somente uns zumbidos ao fundo, uns sons destoados, a cidade não percebe que não faço mais parte do seu sistema, estou desconectado, não consigo mais entrar nisso que se chama rotina, não há mais sono, e volto a clamar. - Alguém, há mais alguém nesse lugar? Dessa vez há respostas. Ouço ao fundo um riso, uma triste melodia misturada a clamores e estardalhaços. Já é dia, a aurora traz consigo o novo. Porém já não me importo, não há nada lá que eu não conheça. É dia, volto ao sistema, volto à rotina, e minha noite? Bem essa eu guardo para mais tarde, quando farei novamente minhas perguntas, e aguardarei ansioso que haja mais alguém fora do sistema...
Escrito por userID: 569463465432firstName: Leandro às 21h51
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BOA HORA
Eis a solução do seu dilema:
Junte seus problemas em uma sacola Amarre bem a boca e jogue fora. A tal sacola iria fora à boa hora A sacola de casa, do trabalho, da escola...
E haja sacola pra tanto problema.
Escrito por userID: 665639470205firstName: às 17h12
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TRÊS DA TARDE
Três da tarde, um calor de rachar. Do asfalto sai uma fumaça transparente que deforma tudo o que se vê através dela. O sol não perdoa aquela cabeça que está quase de miolos cozidos, mas que teima em continuar andando. Andar é o mínimo que ele pode fazer pra conseguir se livrar daquela farda que torna o dia muito mais quente. Preferiu trocar o vale-transporte por chocolates e outras besteiras, e ir pra casa à pé. Enquanto comia os chocolates nem lembrava desse sol. Agora só lembra dos chocolates que estão embrulhando seu estômago. Uma vez ouvira falar que o resultado da equação ?chocolate + calor? não era muito bom. Agora sentia na pele essa verdade. O melhor a fazer talvez fosse tentar esquecer. Contar os postes do caminho. Esquecer que aquilo era um caminho. Estava tão longe e a Frei Serafim era tão imensa, pra quem a percorre a pé... Nesses delírios de fome e sede, à uma distância infinita de casa, quase foi atropelado por um carro. Ao invés de lhe oferecer uma carona, o cara engravatado e mal-humorado lhe xingou. Coitado! Não deve ter tido uma boa adolescência! E continuou o mirrado estudante em sua longa viagem, com seu imbatível bom humor. Por que diabos esse condicionador de ar não esfria? Ter que andar de terno e gravata nesse calor era, definitivamente, a pior parte desse serviço. Cobranças de clientes, má vontade de juízes, perder a paz... não. Nada disso era pior. E agora, esse trânsito infernal. Motociclistas enfiam-se no espaço onde só cabem exatamente suas motos, que vão costurando tudo. E buzinando; o celular toca, mas ele não pode atender, pois ali na frente tem um homem de boné branco que está doido pra lhe tirar o sangue... Pega um chocolate no porta?luvas e come. Lembrou-se que há muito tempo ouvira falar num desagradável resultado para a soma ?chocolate + calor?. Mas não se importava com isso agora. Ás vezes sentia saudades dos tempos em que trocava os vales-transporte por chocolates, e acabava voltando pra casa à pé. Ia que nem sentia o caminho. E nesses devaneios de chocolates no calor que o ar condicionado do carro não diminui, quase atropela um estudante magrinho que atravessava a Frei Serafim distraído... Onde esses estudantes de hoje em dia andam com a cabeça? No seu tempo era tudo tão diferente... Buzinou, xingou o rapaz, e foi embora com seu mau humor.
Escrito por userID: 665639470205firstName: às 18h03
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PRÉLIO
Sinto algo correndo em minhas veias Algo que vai percorrendo meu corpo e o fazendo mudar. Existe algo em minas veias, E que não estava aqui antes. Existe algo corroendo minhas veias, Algo que vai amolecendo meu corpo e deixando-o mais pesado.
Existe vida em minhas veias. Mas vida que não é a minha. Existe uma vida correndo em mim. Uma vida destrutiva, Uma vida que tende a querer acabar com a minha.
Existe guerra em minhas veias. E no momento estou perdendo. Estou sem forças, cansado e ofegante. Estou farto dessa luta, mas não me entrego, Essa guerra eu não posso perder.
Existe vida em minhas veias. Uma vida que pretendo acabar. Há guerra em minhas veias. Uma guerra que pretendo vencer. Há um vírus correndo em minhas veias. Um vírus que pretendo liquidar.
Sinto algo em minhas veias... Algo que não consigo me livrar...
Escrito por userID: 569463465432firstName: Leandro às 20h57
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